Sunday, January 15, 2006

Hoje acordei órfão.

15-01-06

Hoje acordei órfão.

Hoje acordei órfão, não literalmente de pai e mãe, o primeiro já se foi há tempos e a segunda vai bem obrigado, mas o sentimento de vazio e de falta de adequação ou encaixe me faz mais só do que nunca. Não sei bem como aconteceu, mas sei quando, ontem a noite antes de domir estava lendo definições sobre as diversas correntes político-ideológicas contemporâneas e pasmem, não me encontrei em nenhuma delas. Logo eu, que perco meu precioso tempo escrevendo sobre o modus vivendi da política nacional, condenando e absolvendo, marcando como gado àqueles que são contrários às minhas crenças, mas que crenças?
Um dia fui de esquerda, socialista democrata, nome bonito, acreditei que as liberdades são a base pra uma sociedade mais justa, sem esquecer da igualdade pressuposto básico para a vivência cordial dos homens. Mas o liberalismo me encantou, chamou-me a atenção a possibilidade do crescimento impulsionado pela liberdade à qual eu já nutria exaltação, mas pra quê igualdade? O mundo é selvagem, seleção natural, os mais bem preparados, coisas assim passaram a me aliciar. Preparando-me para a guerra tornei-me capitalista, meu lema era crescer, não importava a que custo, igualdade pra que? Porque deveria eu ser igual a todo mundo? Teria que ser o melhor, não importava em quantas cabeças eu teria que pisar. E me rendi ao poder do lucro, na minha ignorância ceguei-me escondendo-me atrás dos muros do capital sem enxergar a bomba relógio armada pelo escalada das desigualdades. Quando percebi a besteira que havia feito me avistei gritando a amplos pulmões, e viva a ditadura! Apenas um governo com braço forte é capaz de assegurar a tranqüilidade nacional expurgando do seio da nação esses reacionários comunistas, e ainda completava, como pode existir um sistema de governo que negue a principal característica do ser humano, a de evoluir, visto ser este uma espécie em evolução deve ser também um indivíduo em evolução, mesmo que alguns tenham que tombar pelo caminho, essa afinal é a lei de Darwin, a da seleção natural. E nesse momento me tornei um fascista de direita, a liberdade passou a ser algo terciário dentro das crenças que eu nutria e já não pensava mais coletivamente, perdi a humanidade e pior, a repressão não resolveu o problema. Percebia-me mais desumanizado que nunca e cada vez mais solitário num limbo ideológico buscando entender o que tinha acontecido com o mundo como se o agente da mudança tivesse sido outro que não eu mesmo. Nesse ínterim percebi que o combustível da revolução é o aprofundamento das desigualdades, e que nenhum tipo de política enfim tinha o intuito de debelá-las. Novamente a amplos pulmões eu gritava, odeio política! E virei Anarquista, a liberdade voltou a ser pilar das minhas aspirações bem como a igualdade e desta vez buscava isto coletivamente, mas percebi que já foram dados muitos passos que inviabilizam uma sociedade anarquista, sem um estado constituído ficar-se-ia muito exposta a própria soberania nacional e a diferença entre os homens acabaria por gerar problemas insolúveis sem um sistema jurídico eficiente, que dirá sem sistema jurídico nenhum.
Mas não desisto, tenho esperança e a empáfia de criar meu próprio sistema ideológico-político onde os indivíduos não terão cerceadas suas possibilidades de crescimento, ao contrário, estas serão potencializadas pelo estado, que será forte para coibir os abusos e austero para possibilitar o crescimento. A propriedade privada é necessária para o crescimento não só do país, mas também do indivíduo, desde que ciente da sua responsabilidade social que deve ter um sentido muito mais amplo como o visto na Economia de Comunhão. Sistemas como a Economia Solidária serão a principal ferramenta para diminuição do desemprego, raiz mor da miséria, fome e criminalidade. A política econômica será focada no homem, fazendo com que este ao crescer gere o crescimento nacional e não o contrário, o estado só existe para prover o bem comum, ou não seria necessário. Alguns detalhes lá e cá e apenas vai me faltar uma legenda, pois o mais importante eu já tenho, amor e respeito pelo meu próximo e a certeza de algo tem que mudar, sem autoritarismos ou qualquer tipo de anti-semitismo, e já não me sinto mais órfão, a longevidade da esperança que nunca morre prenuncia dias melhores, e a busca de um ideal pra se engajar deve continuar viva dentro de cada um. Crer nisso é dar vida ao que espera e ferramentas ao que trabalha e luta para construir um mundo mais justo e fraterno.


www.willnogueira.blogspot.com

willnogueira@hotmail.com

2 Comments:

Anonymous lanyvalente@uol.com.br said...

Will, cacete, que aula poética de história!!

Recebi seu texto por e.mail, de um grupo do qual faço parte mais como expectadora (tô em fase Wu-Wei, que, segundo o Tao e I-Ching, significa não reação - esperando, esperando, esperando, acho que por absoluta falta de forças prá qualquer luta).
Só queria dizer que o que você escreveu é uma síntese (triste e linda)das relações políticas (des)humanas contemporâneas. Obrigada pela sensação de pertencimento, mesmo que a uma raça em extinção (sem nenhuma ONG prá salvar): a dos pensantes e sentintes.
Que algum deus nos salve da inutilidade absoluta e, talvez quem sabe, que a história nos dê razão (mesmo depois de expostos em museu).
Abraço.
Lany

8:40 PM  
Anonymous lanyvalente@uol.com.br said...

Will, cacete, que aula poética de história!!

Recebi seu texto por e.mail, de um grupo do qual faço parte mais como expectadora (tô em fase Wu-Wei, que, segundo o Tao e I-Ching, significa não reação - esperando, esperando, esperando, acho que por absoluta falta de forças prá qualquer luta).
Só queria dizer que o que você escreveu é uma síntese (triste e linda)das relações políticas (des)humanas contemporâneas. Obrigada pela sensação de pertencimento, mesmo que a uma raça em extinção (sem nenhuma ONG prá salvar): a dos pensantes e sentintes.
Que algum deus nos salve da inutilidade absoluta e, talvez quem sabe, que a história nos dê razão (mesmo depois de expostos em museu).
Abraço.
Lany

8:40 PM  

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