Hoje acordei órfão.
Hoje acordei órfão.
Hoje acordei órfão, não literalmente de pai e mãe, o primeiro já se foi há tempos e a segunda vai bem obrigado, mas o sentimento de vazio e de falta de adequação ou encaixe me faz mais só do que nunca. Não sei bem como aconteceu, mas sei quando, ontem a noite antes de domir estava lendo definições sobre as diversas correntes político-ideológicas contemporâneas e pasmem, não me encontrei em nenhuma delas. Logo eu, que perco meu precioso tempo escrevendo sobre o modus vivendi da política nacional, condenando e absolvendo, marcando como gado àqueles que são contrários às minhas crenças, mas que crenças?
Um dia fui de esquerda, socialista democrata, nome bonito, acreditei que as liberdades são a base pra uma sociedade mais justa, sem esquecer da igualdade pressuposto básico para a vivência cordial dos homens. Mas o liberalismo me encantou, chamou-me a atenção a possibilidade do crescimento impulsionado pela liberdade à qual eu já nutria exaltação, mas pra quê igualdade? O mundo é selvagem, seleção natural, os mais bem preparados, coisas assim passaram a me aliciar. Preparando-me para a guerra tornei-me capitalista, meu lema era crescer, não importava a que custo, igualdade pra que? Porque deveria eu ser igual a todo mundo? Teria que ser o melhor, não importava em quantas cabeças eu teria que pisar. E me rendi ao poder do lucro, na minha ignorância ceguei-me escondendo-me atrás dos muros do capital sem enxergar a bomba relógio armada pelo escalada das desigualdades. Quando percebi a besteira que havia feito me avistei gritando a amplos pulmões, e viva a ditadura! Apenas um governo com braço forte é capaz de assegurar a tranqüilidade nacional expurgando do seio da nação esses reacionários comunistas, e ainda completava, como pode existir um sistema de governo que negue a principal característica do ser humano, a de evoluir, visto ser este uma espécie em evolução deve ser também um indivíduo em evolução, mesmo que alguns tenham que tombar pelo caminho, essa afinal é a lei de Darwin, a da seleção natural. E nesse momento me tornei um fascista de direita, a liberdade passou a ser algo terciário dentro das crenças que eu nutria e já não pensava mais coletivamente, perdi a humanidade e pior, a repressão não resolveu o problema. Percebia-me mais desumanizado que nunca e cada vez mais solitário num limbo ideológico buscando entender o que tinha acontecido com o mundo como se o agente da mudança tivesse sido outro que não eu mesmo. Nesse ínterim percebi que o combustível da revolução é o aprofundamento das desigualdades, e que nenhum tipo de política enfim tinha o intuito de debelá-las. Novamente a amplos pulmões eu gritava, odeio política! E virei Anarquista, a liberdade voltou a ser pilar das minhas aspirações bem como a igualdade e desta vez buscava isto coletivamente, mas percebi que já foram dados muitos passos que inviabilizam uma sociedade anarquista, sem um estado constituído ficar-se-ia muito exposta a própria soberania nacional e a diferença entre os homens acabaria por gerar problemas insolúveis sem um sistema jurídico eficiente, que dirá sem sistema jurídico nenhum.
Mas não desisto, tenho esperança e a empáfia de criar meu próprio sistema ideológico-político onde os indivíduos não terão cerceadas suas possibilidades de crescimento, ao contrário, estas serão potencializadas pelo estado, que será forte para coibir os abusos e austero para possibilitar o crescimento. A propriedade privada é necessária para o crescimento não só do país, mas também do indivíduo, desde que ciente da sua responsabilidade social que deve ter um sentido muito mais amplo como o visto na Economia de Comunhão. Sistemas como a Economia Solidária serão a principal ferramenta para diminuição do desemprego, raiz mor da miséria, fome e criminalidade. A política econômica será focada no homem, fazendo com que este ao crescer gere o crescimento nacional e não o contrário, o estado só existe para prover o bem comum, ou não seria necessário. Alguns detalhes lá e cá e apenas vai me faltar uma legenda, pois o mais importante eu já tenho, amor e respeito pelo meu próximo e a certeza de algo tem que mudar, sem autoritarismos ou qualquer tipo de anti-semitismo, e já não me sinto mais órfão, a longevidade da esperança que nunca morre prenuncia dias melhores, e a busca de um ideal pra se engajar deve continuar viva dentro de cada um. Crer nisso é dar vida ao que espera e ferramentas ao que trabalha e luta para construir um mundo mais justo e fraterno.
www.willnogueira.blogspot.com
willnogueira@hotmail.com

2 Comments:
Will, cacete, que aula poética de história!!
Recebi seu texto por e.mail, de um grupo do qual faço parte mais como expectadora (tô em fase Wu-Wei, que, segundo o Tao e I-Ching, significa não reação - esperando, esperando, esperando, acho que por absoluta falta de forças prá qualquer luta).
Só queria dizer que o que você escreveu é uma síntese (triste e linda)das relações políticas (des)humanas contemporâneas. Obrigada pela sensação de pertencimento, mesmo que a uma raça em extinção (sem nenhuma ONG prá salvar): a dos pensantes e sentintes.
Que algum deus nos salve da inutilidade absoluta e, talvez quem sabe, que a história nos dê razão (mesmo depois de expostos em museu).
Abraço.
Lany
Will, cacete, que aula poética de história!!
Recebi seu texto por e.mail, de um grupo do qual faço parte mais como expectadora (tô em fase Wu-Wei, que, segundo o Tao e I-Ching, significa não reação - esperando, esperando, esperando, acho que por absoluta falta de forças prá qualquer luta).
Só queria dizer que o que você escreveu é uma síntese (triste e linda)das relações políticas (des)humanas contemporâneas. Obrigada pela sensação de pertencimento, mesmo que a uma raça em extinção (sem nenhuma ONG prá salvar): a dos pensantes e sentintes.
Que algum deus nos salve da inutilidade absoluta e, talvez quem sabe, que a história nos dê razão (mesmo depois de expostos em museu).
Abraço.
Lany
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