Wednesday, December 21, 2005

A esperança que não venceu o medo...

A história tem nuances interessantes e curiosas para aqueles que a estudam, entre elas estão momentos ímpares onde homens predestinados mudaram o rumo de nações inteiras para o bem ou para o mal, impulsionados não apenas por suas figuras individuais, mas por uma conjuntura global que lhes permitiu trilhar caminhos que deixaram seus nomes gravados nos passos dados pela humanidade. Exemplos como o de Getúlio Vargas no Brasil, Adolf Hitler na Alemanha e Mussolini na Itália esclarecem tais palavras, onde tanto no momento de sua ascensão impulsionada pela depressão do pós 1º grande guerra geradora de condições econômicas e sociais sofríveis, quanto no momento de suas quedas onde a vitória da democracia na 2º grande guerra derrubou tais governos os quais derrotados como na Europa ou por simples coerência global como no Brasil, não poderiam permanecer no poder graças a um novo padrão histórico mundial.
Nos dias de hoje não é diferente, principalmente nos países em desenvolvimento esquerdas democráticas eleitas pelo voto com a esperança de que estas apresentem soluções para os mais imediatos problemas sociais vem substituindo gestões neoliberais que só fizeram pilhar o estado, permitir o aprofundamento de desigualdades e reforçar estruturas de dominação estrangeira. No Brasil é lamentável como a esperança que deveria vencer o medo se tornou um pesadelo num momento em que tudo conspirava para uma vitória da democracia, justiça social ou ao menos diminuição do abismo de desigualdades existente em nossa sociedade. A responsabilidade do governo de esquerda atual vai muito além da importância de se manter a estabilidade, manter a imagem do Brasil no exterior ou de acumular “superávits”, é a responsabilidade de ter sido a primeira vez que a esquerda chega ao poder em nosso país de forma legítima e carregando a esperança de milhões de pessoas que acreditaram na redenção social, no fim da miséria e da fome e hoje vêem a destruição do patrimônio nacional por meio de roubos e corrupção ativa numa gestão que engessa o desenvolvimento baseando-se numa estabilidade e num crescimento que se apóia numa onda global, mas que insiste o governo em dizer que é cria da política econômica vigente.
Tudo isso terá um custo, quando a onda de crescimento global passar e a “marola” que leva o Brasil a crescer 3% ao ano enquanto outros países crescem 10% acabar, a política dos juros altos se mostrará ineficiente pois sem investimentos em infra-estrutura não se conseguirá manter crescimento sustentável e nesse momento todos pagaremos, mas principalmente a esquerda brasileira pagará amargando a chance perdida e a bravata de ter encenado um dos governos mais sujos e corruptos de que se teve notícia na história brasileira. Outro custo perigoso será o das alternativas, o neoliberalismo entreguista espreita, a extrema direita fundamentalista resiste ao tempo e milita a favor do ódio e do anti-semitismo nos guetos das grandes cidades bem como os órfãos da esquerda democrática que terminam por se radicalizar na busca por uma resposta mais consistente aos anseios sociais finalizando a combinação explosiva do conflito ideológico-político.
Processos como o visto na França recente não são fruto do acaso, nos subúrbios de Paris a taxa de desemprego chega a 40% enquanto na cidade é por volta de 15%, tal fato ocorre pois os jovens suburbanos filhos de imigrantes vindos das antigas colônias mesmo sendo franceses são discriminados não tendo o mesmo acesso aos meios de ascensão dos moradores dos grandes centros. Gerada a insatisfação a revolução se faz naturalmente e não é mera coincidência a mão de obra utilizada pelo tráfico de drogas nas favelas do Rio de Janeiro ser de jovens também excluídos dos processos sociais que além de buscarem retorno material em tal atividade nutrem uma revolta contestadora dos valores adotados no âmbito geral da sociedade, excludente em sua essência.
Ambos aspectos são revoluções sociais e reflexos globais, causarão impulsos e modificações na estrutura dominante e também no comportamento da sociedade como um todo. Nas palavras de Marx “O motor da história é a luta de classes”, girando alimentado pelo combustível da desigualdade social ele funciona ininterruptamente. A esquerda brasileira teve sua oportunidade de levá-lo ao rumo da justiça e temo que tenha falhado se efetivamente em algum momento este foi seu intuito. Só nos resta agora abrir os olhos para a revolução que não tarda, já chegou e lança o seu pé à porta ou o projétil perdido, deflagrado pela falta de valores e da esperança que por fim não conseguiu vencer o medo.

1 Comments:

Anonymous cassi said...

Oi, Willian

Adorei ler este texto seu, compartilho desse sentimento de indignação diante da exclusão social em massa, em breve estarei refletindo este tema no meu Blog. Abraços, e é sempre muito bom ler o que voçe escreve

11:45 AM  

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